João anuncia o prenúncio do fim, não necessariamente o fim

Por Paulo Nailson

A operação deflagrada pela Polícia Federal e Procuradoria Geral da República em 18 de maio foi denominada de Patmos, local onde o apóstolo João foi exilado e teve revelações apocalípticas. Daí houve dedução em muitos textos jornalísticos da seguinte forma: “Com Patmos, a Procuradoria-Geral da República anuncia o apocalipse político.”

Ainda que o nome do livro bíblico de Apocalipse vem de uma palavra grega que significa “Exposição” ou “Revelação”, como aparece em algumas traduções, expõe assuntos que estavam ocultos e revela eventos que aconteceriam muito tempo depois de terem sido escritos. Ou seja, outros fatos ainda seriam revelados e aconteceriam futuramente ao longo do tempo histórico.

Então chegamos ao fim desse lamacento poço? Permanecer nessa linha de desacreditar na política e nos políticos fazendo críticas generalizadas e não reflexivas ajuda a melhorar o processo? É justo criminalizar o corrupto ignorando todos os envolvidos no processo? Não temos, enquanto eleitores, nossa parcela de culpa no que está ai?

O poeta Zé Bezerra em seu cordel “Comprar voto é um crime que só faz Levar muitos corruptos ao poder” nos ajuda nestas respostas:

“É corrupto e safado o candidato

Que se presta a fazer o tal negócio

Desse crime o eleitor é sócio

Corrompendo-se ao praticar o ato

Passa a ser vulnerável e barato

Porque a consciência quis vender

Ajudando a uma máfia promover

Indivíduos ladrões e imorais

Comprar voto é um crime que só faz

Levar muitos corruptos ao poder.”

Então vamos trabalhar cada um no seu raio de alcance e sendo exemplo no seu campo de ação, por uma nova consciência social, uma nova consciência de responsabilidade na formação de novos indivíduos. É preciso entender que isso leva tempo mesmo. Mas é necessário insistir e permanecer caminhando nessa direção. Reforçar cada vez mais essa nova cultura de valores que não só atinja o político, mas toda escala da sociedade.

Quando olhamos para trás temos muitas denúncias reveladas nos últimos governos, e isso não podemos esquecer. Infelizmente são tão volumosas que não conseguimos lembrar ou acompanhar, veja:

Pois mais denúncias que estejam sendo expostas agora, foi durante o governo Lula e Dilma que 2.599 agentes públicos do executivo Federal foram expulsos por envolvimento em práticas ilícitas; 34,44% destes por utilização do cargo para obter vantagens, 19,14% por improbidade administrativa e 6,255 por recebimento de propina;

Antes do Mensalão petista, já existia o Mensalão Tucano (PSDB) escândalo que revelou peculato e lavagem de dinheiro que ocorreu na campanha para a eleição de Eduardo Azeredo (PSDB-MG) – um dos fundadores, e presidente do PSDB nacional; e o Mensalão do DEM do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, figuram na lista de 37 denunciados pelo Ministério Público o vice-governador Paulo Octávio Pereira, dez deputados e ex-parlamentares, secretários de Estado e autoridades. Arruda disse ao ser preso em 2009 que “ainda não apareceu nem metade da missa”. O mesmo Arruda foi solto, disputou eleição em 2014, e no ano passado teve o processo suspenso pelo Supremo Tribunal de Justiça. Inclusive a alegação da defesa é a mesma do Temer que a gravação sofreu edições;

Não é de agora, há quase vinte anos a Polícia Federal vem prendendo juízes e delegados, é só lembrar algumas operações como Satiagraha (2004) que prendeu banqueiros, diretores de bancos e investidores, ou a Operação Narciso, que prendeu a empresária dona da loja DASLU. Os dados dão conta que entre 2006 e 2011, a Polícia Federal prendeu de 2.500 a 2.800 pessoas por ano. Só no primeiro ano do governo Dilma foram 2.089 prisões. Então, repito, não é de agora as denúncias nem prisões, é decorrente de um processo que vem há quase duas décadas.

“A Corrupção é da natureza humana”, concluiu Torquato Jardim, Ministro da Transparência, Fiscalização e Controladoria da União, em entrevista a IstoÉ Dinheiro, na sexta, 19. Em uma das respostas ele cita que a mudança que tanto esperamos vai ser demonstrada nas urnas: “Quando o Brasil eleger seu novo Congresso Nacional. Se houver renovação ética, de compromisso com os princípios fundamentais do Estado brasileiro postos na Constituição, haverá uma transformação”. Lembrando que o eleitorado precisa estar devidamente esclarecido ciente que a responsabilidade maior começa nas escolhas que faz.

O São João no Apocalispse anuncia apenas o princípio das dores. E embora muita gente associe a palavra “apocalipse” com um grande desastre, o livro de Apocalipse começa e termina dizendo que aqueles que leem, entendem e aplicam a sua mensagem serão felizes (Apocalipse 1:3; 22:7). Se é verdade que o momento atual é confuso e cinzento e atinge todos os níveis trazendo consequências para os estados e municípios, ainda não é o fim e precisamos ficar atentos, reforçar as trincheiras e frentes de luta por uma nação mais justa a partir de nós mesmos. De olho no que está acontecendo lá em Brasília sem se descuidar das ações do poder Legislativo e Executivo aqui, da ambição de empresários inescrupulosos e agentes públicos bem pertinho da gente. Essa gente precisa saber que nada fica escondido para sempre e que se ainda não é o fim… ele está próximo.

Paulo Nailson de Almeida Lima

É membro da direção municipal do PCdoB Caruaru. Blogueiro, militante social, cultural e colaborador.

 

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