Nunca me enganei com a alegria do palhaço. Eu tinha sete, oito anos e ia atrás dele quando o circo estava na minha pequena cidade, mas eu já tinha a certeza de que o palhaço não ria de felicidade. Tampouco eu era feliz, estando ou não na presença dele. Mas tínhamos, eu e ele, objetivos claramente definidos e eram eles confluentes.
O palhaço saía pelas ruas da cidade fazendo propaganda e convidando para o espetáculo da noite. Uma molecada ia atrás, e eu me associava a esse grupo, não porque gostasse, mas porque eu queria mesmo era ganhar o direito de entrar gratuitamente no circo.
Quem ia com o palhaço, se cumprisse todas as suas determinações, ganhava um ingresso. E ele mandava dançar, rebolar, cantar, gritar, em sua caminhada pelas ruas da cidade.
Sempre tive responsabilidade e disciplina, além de honestidade. E se o circo pagava, com a entrada, pelo serviço de assessor de palhaço a propaganda do espetáculo, mesmo não acreditando na sua alegria, eu rebolava, cantava, gritava, dançava. E ganhava, honestamente, o direito de entrar no circo à noite.
O circo ia e vinha e era querido na cidade. Os seus integrantes já eram conhecidos e conheciam grande parte da população da cidadezinha. Outro circo não ia à cidade,porque era muito pequena e não apresentava atrativo para as companhias circenses, mesmo que fossem de pequeno porte. Era certeza de fracasso de público e, consequentemente, prejuízo financeiro.
Mas o ali famoso “Jota Mendes” tinha sucesso com seu circo, já fazendo mesmo parte da história da cidade, porque não ficava mais que seis meses sem aparecer.
Havia até casos amorosos de pessoas da cidade com integrantes do circo. Corria à boca pequena a existência de relacionamentos sorrateiros até mesmo com gente casada, que ficava ansiosamente esperando o regresso do circo – e não era pelo espetáculo.
As crianças, sim, esperavam por causa do palhaço, cujas atuações nas ruas acabavam sendo mais divertidas para elas do que o próprio espetáculo.
E ele, o palhaço, embora fazendo suas palhaçadas pela cidade à luz do sol, era um compenetrado trabalhador, observando cada um dos moleques pobres, e alguns nem tão pobres, que o seguiam. Não era raro ele excluir meninos que não estavam trabalhando conforme o esperado.
Eu ficava de olho nele e fitava-o nos olhos, muitas vezes procurando avaliar como estava sendo percebida minha atuação. E eu, nesses lances de olhar, percebia que ele não estava alegre por trás de sua pintura; fui percebendo que ele não era feliz, que apenas realizava um trabalho, assim como eu. E que, embora esse trabalho fosse o de fazer o povo rir, parecia que não lhe agradava realizá-lo.
Vem daí meu jeito de fitar as pessoas nos olhos para tentar adivinhar se estão ou não felizes, ou se estão mentindo; e também daí vem minha percepção de que as pessoas estão quase sempre procurando enganar as outras, fingindo que são felizes.
E ainda ficou em mim essa inconstância, esse desassossego e o impulso quase incontrolável de mudar, de “desarmar a barraca” de tempos em tempos, buscando um lugar melhor. Como se esse lugar melhor existisse.
Logo eu, que nunca acreditei nem em palhaço, aos sete anos!
Se eu tivesse ido com o circo – quando quiseram me levar – talvez tivesse voltado seis meses depois, sabendo que não há lugar onde possa encontrar o que procuro.
Mas como não fui, até hoje ficou esse vazio, e a dúvida se o palhaço quando me olhava, percebia que eu não acreditava nele.
Do Jornal de Caruaru.












