Vidinha simples, resignada, aceitando o destino que Deus traçou para sua vida em casinha rural sem ostentação, sem portão elétrico, porteira rangido alegrias pela chegada de Marina, menina linda nascida de parteira, sem panos higienizados dos hospitais mercenários que cobram até doação de sangue de parentes do enfermo. Partiu, após se refestelar comendo jerimum caboclo com leite, rapadura adoçando o café, milho assado estalando no fogão de lenha na cozinha fumacenta defumando a linguiça e a carne de sol dependuradas em arame com pregos firmados em paredes de reboco, onde um é pouco, dois é bom e, três, com a chegada de Marina, é bom demais. E haja aconchego, beijos de vó nas bochechas rosadas, ganhando sorriso banguela, o mais puro e sincero sorriso entre a gratidão da recém-nascida e a avó sessentona, que volta a ser mãe novamente.
Deixou o sítio montando o cavalo Ventania, que adorava a estafante caminhada até a cidade majestosa de Caruaru, com a certeza de ser acarinhado pelas crianças na casa da bisavó de Marina, D. Lilia, com milho, cenoura e até açúcar, enquanto disputavam seu lombo em pequenas caminhadas pelo terreiro da casa, após banho de água fria e limpa. “Se os adultos amassem os animais quais as crianças amam, a harmonia entre as espécies seria a consagração da humanidade”. – dizia o tio-avô metido a filósofo.
Deixando o cavalo protegido, partiu à Feira de Artesanato de Caruaru, sua primeira caminhada. Adorava ver a arte exposta em bonecos de barro, em bolsas em agave, tapetes em lonas reaproveitadas, cortinas em cordões, chapéus em variados matizes, e bonecas em panos coloridos adornando o quarto de Marina para ela apreciar a arte nas bonecas, diferentes daquelas que falam, choram, mas são plastificadas pela indústria, sem vida, embora com tecnologia, mas sem alma.
Os filhos o levam a um tal de Xopping. Lugar bonito, perfumado, com mulheres lindas desfilando, crianças brincando em carros elétricos, sem peão, finca, pipas, disputando barra bandeira, jogos de bola. Tudo artificial, futurista. E, no almoço, tentou falar e ouvir, mas adultos e crianças estavam concentrados no celular falando com amigos distantes. Sua presença revelava-se insignificante.
Melhor a conversa na calçada da casa, lá na roça, onde a gente sabe dos fuxicos de boca em boca, e a gente ri, pita e bebe uma branquinha sem o garçom engalanado nos servindo e cobrando os olhos da cara, enquanto as adolescentes brincam ao redor da fogueira com adivinhações. E desce o charque gorduroso, mas muito gostoso, espalhando o cheiro de fumaça saudável, diferente do óleo diesel dos ônibus.
Que Marina desfile no Xopping, mas não se esqueça de caminhar pela Feira de Artesanato de Caruaru e presenciar a maternidade de sua boneca de pano.Vê se pode?!
