A valorização em calar é ter oportunidade de ouvir conversas dos outros, como espiões da fala alheia, sem que percebam a invasão. Ouvir é melhor que falar. E ouvir no lotação a conversa de dois amigos era coisa bem interessante. Dilatou os ouvidos, fazendo das orelhas antenas de alta resolução, embora fingisse cochilar com olhos fechados.
O amigo estava encorujado. Pela cara de testa enrugada, qual lama de barreiro na seca, se via a agônica preocupação com algo que não ousava manifestar, mas que, para alguns, calar é como enturir fruta de palma e jabuticaba sem expelir os caroços.
– Tá tudo bem? – perguntou, mais por curiosidade que por solidariedade, como sempre fazemos em sentimento da mais pura hipocrisia.
– Hum! Hum! – respondeu permanecendo em silêncio. O amigo percebeu que dois Hum, Hum são sinais que a causa era maior que o efeito. Deu um tempo e voltou a questionar o amigo, desta vez com sincera preocupação:
– Vai, homi! Te abre. Vomita esse entalo de cuscuz. O que ferve o teu juízo? Somos amigos…
– É minha netinha… – mal começou a relatar, a voz embargou como se fosse chorar. A neta nascera tinha menos tempo que duas luas e estava o mais feliz, a primeira neta mulher, linda, não se continha de alegria e, agora, estava engolindo o choro ao falar da pequena.
– Que houve com minha afilhada? Tá doente? Levou ao médico? Que mal a acomete? – e fez tantas perguntas que o angustiado o interrompeu:
– Nada grave. Mas preocupa e dá raiva. – seu semblante passou de agonia para ira.
– Que tem a pequena Juventina? – perguntou verdadeiramente aflito o amigo.
– Tá com olhado. Olho mau. Olho agorento. Tá molinha, não sorri quando lhe faço cócegas, olhos quebrados, leve febre, não abre os bracinhos a me ver, molinha, molinha. Quase um molambo de retirante.
– Meu Deus! Levou ao médico? O que ele disse? – perguntou sinceramente preocupado com a afilhada.
– Qui médico qui nada. Levei para o Pai de Santo Ambrozino Levanta Pau e ele foi taxativo, objetivo:
“Mau olhado de gente invejosa que não disse Benza Deus”. – diagnosticou com precisão de causar inveja no médico doutor Antônio Vieira, que sabe de tudo e algo mais.
O amigo fez aquele ar próprio aos ignorantes quando não conhecem os costumes nordestinos.
-Explica isso, homi – pediu com a gentileza dos que querem aprender alguma coisa, já que era oriundo das terras do Sul. E o amigo, pacientemente e com mestrado em crendices nordestinas, explicou a causa da doença da neta querida.
Juventina nasceu sadia, gordinha que nem porquinha no leite, e muito bonita. Uma flor de maracujá na beleza e um sorriso de quem acha dinheiro na rua! E isso causa inveja em quem não tem uma menina tão linda quanto eu tenho. Daí vão lá em casa, entram trazendo pó de arroz, uma lavanda, uma roupinha espinhosa como presentes pra menina. E, aí, bebem licor de pitanga e comem tanto bolo de mandioca que dá pra comprar uma fábrica de perfume e um fabrico na sulanca, mas, tudo bem, é coisa da gente, a gente é assim…
- Sim, compadre, e o olhado, quando surge o olho mau? – perguntou impaciente o amigo que vem fugido de outras terras.
- Quando o visitante pega a criança nos braços, se a achar bonita tem que dizer: “Mas que criança linda… Benza Deus”! Se só dizê que é bonita e num dizê o Benza Deus, a criança pega o olho gordo, adoece e fica molinha, doentinha, sem comer, sem forças. E isso também serve para os que admiram uma fulô bonita, um cachorro caçador, um belo boi reprodutor. Se num dizê Benza Deus, a fulô murcha, o perdigueiro num caça nem gato, e o boi vira mulezinha sem vontade, e brocha. O padrinho de Juventina, que andava esquisitão nos últimos dias, fez aquela cara de quem descobre sua doença, e pensou: “Ah! Agora sei por que o guerreiro tá molinho, quieto, sem fogo. Foi a desgraçada da Jardileusa Boca de Veludo que, quando o viu viril, disse com espanto: Mas que lindo! Como é grande! Volumoso! Esperto! Meu gigante!… E não disse Benza Deus”.
- Kenga safada! – gritou sem policiar seus pensamentos.
- O que foi, compadre? – perguntou sem entender a fúria do amigo.
- Nada não, compadre. Tava me lembrando duma rapariga safada que me botou olhado, olho gordo. Feiticeira maldita!
Após ser rezada, Juventina voltou a brincar, está durinha, linda e feliz. Benza Deus! Benza Deus! Benza Deus! – Oxe! Custa nada se garantir.
Já o padrinho anda numa tristeza de dar dó. Não acredita em rezador.
Vê se pode?!












