Morrer não o atormentava tanto quando o medo da solidão na morte. Dizia que morrer é factível, portanto, não deveria nos angustiar, já ficar sozinho num mausoléu imponente ou num buraco de terra batida, aprisionado em resistente e hermética caixa de madeira, sem poder mover os braços, sem conseguir coçar o nariz, costume que carregava em vida e o fazia várias vezes ao dia, principalmente em estado nervoso na justificação de deslize ou de mentira, isso, sim, era tormentoso.
– E não poder coçar o saco? – perguntava afirmativamente, quase se engasgando na própria voz agônica, provocando risos nos amigos que enfeitavam sua fértil imaginação macabra com questionamentos de “não mais poder sair para dançar no Filé de Bode, jogar futebol no campinho do Cavaco, tomar cerveja geladinha no bar do Zequinha com o amigo Nivaldo Pereira, o homem das pedras preciosas, colecionador de Turmalinas Paraíba”.
- Empacotado, deve fazer um calor dos infernos… E sorriam fingindo não ter medo da morte, zombando de Caetana. – Ah! Como suportar a vida, no caso a morte, sem um livro pra ler que nos leve a frequentar lugares de beleza que só a criação do escritor é capaz de produzir, protagonizadas por personagens sem os terríveis defeitos humanos que só a literatura é capaz de nos fazer crer no inimaginável, na impossível existência.
- Morrer, para quem já atingiu a idade dos seminovos, não atormenta tanto quanto o cerceamento da liberdade do ir-e-vir, do falar, do discutir até com gente chata que defende o indefensável, com o intolerante, o preconceituoso, o dono da verdade. A solidão na morte é o medonho espectro da existência. – dizia deixando amigos pensando que o finito o estava rodeando feito redemoinho anunciando chuva.
Daí, quando a filosofia de mesa de bar se misturava a relatos de sonhos fracassados, a amores não ousados na conquista, a beijos não aspirados em bocas com gosto de pitanga, a lamentos pelo que não se fez, e o éter dos pesadelos se misturava à fumaça dos cigarros fedorentos e bafos azedos de embriaguês, estava na hora de ir pra casa.- Deve haver um cantinho no mundo onde a morte não possa nos descobrir. – dito isso, não colocou o taco da sinuca no taqueiro, preferindo jogá-lo na imensidão do universo verde, onde planetas coloridos dormiam encaçapados nos buracos negros tricotados por reatas de couro. O giz, que estava na beirada da mesa, caiu ao chão deixando no ar rastro do pó branco qual rabo de gelo dos cometas.
Preparava-se para retornar a casa num tapete voador que comprou de um cigano que acabara de chegar de Macondo. E tinha bebido, não sendo responsável dirigir. Antes, porém, de subir no tapete voador, deparou-se com uma cabocla nua, de longos cabelos negros que cobriam todo o corpo da bela moça que estava a fazer tranças na crina de um cavalo crioulo. - Era Comadre Fulozinha. Então, ele deu à cabocla papa de aveia, confeitos e mel e, em troca, recebeu a informação desejada, pois se dizia sabedora de todos os esconderijos na terra. Daí bateu a curiosidade e perguntou onde se esconder da morte, mesmo que seja um cantinho, um cubículo. Comadre Fulozinha, pensativa, coçou os cabelos, olhou-o nos olhos, cuspiu na calçada em total falta de higiene, e lhe disse olhando para os lados, como se revelando grande segredo que ninguém mais pudesse ouvir:
-Só existe um lugar, um esconderijo, onde se pode se esconder da morte… É na caverna subterrânea existente no subsolo de Caruaru, onde se fabricam os estrondos para assustar os assustáveis. Nesta caverna existe um lago de águas tão límpidas que refletem luzes nas estalactites, fazendo-a a única caverna com luz própria e peixes coloridos parecer ser a nascente do Rio Ipojuca.- Mas, como chegar à entrada desta caverna? – perguntou o navegador do tapete voador, já exprimindo satisfação pela resposta.
- Deve haver um cantinho no mundo onde a morte não possa nos descobrir. – dito isso, não colocou o taco da sinuca no taqueiro, preferindo jogá-lo na imensidão do universo verde, onde planetas coloridos dormiam encaçapados nos buracos negros tricotados por reatas de couro. O giz, que estava na beirada da mesa, caiu ao chão deixando no ar rastro do pó branco qual rabo de gelo dos cometas.
- Ora! Procure! Você vai achar. – e, dito isso, encantou-se qual poesias da MPB de qualidade que ninguém ouve mais.
“A falta de liberdade nos vivos só se compara à lancinante e imensa solidão dos mortos”. – afirmou o famoso filósofo sueco dos aveloses, Sir. Solrac Oriehnip, agachando-se para não ser atropelado pelo tapete voador que passou sobre sua cabeça levantando poeira cósmica, e sem dar a menor importância às palavras do filósofo de mesa de bar.
Vê se pode?!












