O Sol ainda pintalgava sua aquarela na manhã ensolarada de “sábado importante para não ser desperdiçado com qualquer um”. Mas, trabalhar era preciso. E para Feira Grande de Caruaru se deslocou, após ralo café com pão e manteiga. Circundando o pescoço fino com embira de sobras de pano fez sustentação ao tabuleiro comercial onde repousavam as humildes mercadorias embaralhadas, mas perfeitamente organizadas entre pentes, caixa de agulhas, espelhos ovais trazendo no frontispício retratos de santos, escudos de time de futebol ou de mulheres em trajes mínimos, artistas do cinema e do rádio, além de caixa de lenços que todo homem educado usava para não espirrar sobre as pessoas sem a proteção do organdi; perfume Promesa falsificado, em pequenos frascos, brilhantina Glostora, sabonete Royal Briar, pastas de dentes Colgate e Colinos; cinturão para magro sem barriga, diademas, bobs para espichar cabelos femininos encaracolados e para cabelos sedosos e ondulados nada melhor que o Legitimo Óleo de Ovo de Carlos Barbosa Leite, o Petrolovo.
Fim de Feira, tabuleiro vazio, separado o lucro do apurado, o dinheiro do ingresso de Santino, no Cine Theatro Caruaru estava garantido para assistir dois filmes de aventuras e um seriado de Zorro ou de Roy Rogers, o artista que atirava com revólver 38 de seis tiros, mas matava trinta e dois bandidos, catorze índios e oito foras da lei.
Com o ingresso do cinema garantido, precisava de mais dinheiro para, no final da sessão, forrar o estômago na Sorveteria Royal: vitamina de abacate com Toddy e duas bolachas Maria. Daí vendia, na fila do cinema, gibis sem capas, revista Capricho que Zé Torres comprava pra Socorro, enquanto penteava o cabelo com pente Pantene, olhando-se no espelho oval retirado do bolso da algibeira. “Último modelo”! Um sucesso entre os rapazes.
Terminada a sessão, abertas as portas, o vento frio da noite espantava o calor insuportável do interior do cinema matando algumas dezenas de pulgas que sobreviviam às estalidas flatulências evacuadas pelo fotógrafo Pissica e por Wellington Gordo.
Antes de iniciar a sessão, a música parava, as cortinas se abriam ao som de buzina de navio, crianças ansiosas batiam os pés no chão numa sincronia sem maestro, unidos para sempre pelas lembranças, sem medo de serem felizes.
Após o lanche na Royal caminhava sem medo, quase pela madrugada, até a Rua do Lixo onde morava. Deitava-se, sonhando acordado, desejando ser artista, beijar a boca de Jane, mulher do Tarzan, acariciar suas coxas torneadas… e esmagava com os dedos a macaca Chita.
Que coxas, meu Deus! – suspirava, até pegar no sono adolescente.
Vê se pode?!












