Por Carlos Pinheiro
Era pedra enorme. Ficava no meio de rua chamada Matança porque nela matavam animais a céu aberto. A cidade cresceu e empurrou a matança para mais longe do centro e a rua passou a ser 10 de Novembro, em homenagem ao sargento-mor Bernardo Viera de Melo pelo primeiro grito de República do Brasil e das Américas em terras de Olinda, por isso se diz que a República é filha de Olinda. Mas, em Caruaru, virou rua das quengas, das raparigas, das mulheres ninfomaníacas, das mulheres de vida fácil. Imagina! Hoje, Rua Porto Alegre.
Porém, onde frutificam mulheres livres germinam os poetas, proxenetas, trovadores, violões, serestas, e se alastram prazeres, brigas, amores e histórias absurdas. A Pedra Elefante tinha tromba invadindo calçada do Cabaré da Luz Verde, e servia de palco à poesia espontânea e popular de Caruaru. Era nela que o cancioneiro Belísio Córdola, paraplégico, largava as muletas, escalava a pedra qual lagartixa em lajedo e declamava poesia para Tâmara, a mais bela e desejada rapariga de toda a história de Caruaru.
Naquela noite de festa, coube o privilégio de noitada com Tâmara, paga antecipadamente à cafetina, ao invejável Zaidan, e adjetivos negativos sobre o trovador caruaruense eram desferidos por pura inveja por aqueles que não versavam em prosa nem em verso, e não desfrutariam naquela noite das odes sob os lençóis da bela morena dos olhos verdes e cabelos negros, longos até a cintura. Principalmente Rui Rosal, Maninho Pinheiro e Nelson Barbalho, que não possuíam dinheiro para serem teúdo e manteúdo da enigmática mulher. Este dispendioso privilégio pertencia ao jogador Esquerdinha.
O casal adentrou a Festa do Comércio, passando pelo Beco da Estudantil, que é assim nominado quando descendo; se subindo, passa a ser Beco da Pequena de Ouro, esquisitices dos filhos desta terra maravilhosa. Crianças levavam à cabeça cadeiras colocadas à borda do Quem Me Quer, passeio da sociedade, para acomodação de mães vigilantes às filhas arrodeando pela calçada; o ceguinho da gaita tocando na calçada da Ray Fay de Djalma Lourenço e da deslumbrante Graça… Era Caruaru em festa com a igreja iluminada pelo velho Teixeira marcando a passagem de ano.
Na entrada do beco, já se sentia o cheiro inconfundível, saboroso e inesquecível do cachorro quente do Parque Caruaru, aguçando o apetite, vontade de degustar carne moída excessivamente vermelhada, colorada, fervilhante em terrina de bronze e sobreposta ao pão francês em rodelas, servindo de tira-gosto à saborosa pinga. Protegendo a barraquinha do cachorro quente, o papel celofane no lugar de vidro protetor de chuva que nunca vinha; em cordão de agave, cebolas, pimentões e tomates dependurados, balançando ao sabor do vento de dezembro, soprando o calor da caatinga, untando roupa de nylon ao corpo suado, impulsionando a roda gigante que, quando parada lá no alto, balançando a cadeira, permitia o beijo adolescente proibido, engando pais, que não viam porque o amor estava no alto, próximo às estrelas, e sobre censores tirânicos na calçada, em baixo, no chão sujo de lixo produzido pela estupidez humana.
Ao comer cachorro quente, pingou graxa na blusa branca. Vaidosa, Tâmara, retornou ao Cabaré. Conta Saulo Santos, jogador do Central e do Sport, na época adolescente desejando se iniciar nos bons pecados, que, naquela noite de poesia, o aleijado trovador se entusiasmou de tal maneira pela beleza de Tâmara que a luminosidade do olhar verde da moça o fez se levantar nas próprias pernas e, do alto da Pedra Elefante, transformou-se num Marlim azul, voou até os olhos da bela mulher, neles penetrou, e foi visto nadando na Praia da Boa Viagem, em Recife, num mar verdinho em folha, ao som da poesia viniciana.
Tâmara não atendeu a clientela naquela noite alegando indisposição alimentar, pois comera peixe e estava com o estômago embrulhado, tomou chá de boldo e foi dormir. Parece mentira essa história, mas não é. Numa cidade onde D. Santinha era a quenga do Coronel Prefeito e mandava prender e soltar qualquer pessoa, tudo é possível.
Vê se pode?!
